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PARA ALÉM MAR




Os sentidos. Aqueles simples elementos tão óbvios, que cada ser humano carrega desde que se vem ao mundo, sempre me chamavam atenção. Desde pequena, entendi que precisava estar perto de tudo que me encantasse. E na natureza. Me lembro ter lido num livro de Manoel de Barros: “Que a importância de uma coisa não se mede por fitas ou barômetros... Mas pelo encantamento que aquilo produz em nós.” Fato!


Sempre fui muito visual. Gosto da estética, das cores, das formas, do horizonte.

Meu avô tocava seu instrumento, mas tudo que eu lembro com meus 4 anos de idade eram seus longos dedos dedilhando o piano de calda negra. O retrato do ângulo que eu consegui captar com o meu tamanho. Eu não me importava muito com as formalidades. Mas me chamava atenção aquele terno branco e chapéu que o acompanhava. Imagem que guardo da infância. Até hoje, eu gosto, sempre que possível de olhar bem nos olhos. Profundamente.


Tendo a música como um grande marco do início da minha vida, sempre entendi que o meu caminho estaria na direção da arte. Meus ouvidos clamavam por camadas que me despertassem a maior forma de expressão, que não haveria outro formato que ali coubesse. É sobre se emocionar, se entregar, viver o momento. Sou até capaz de me desnudar através de uma combinação de notas que me levam para outra dimensão. Eu danço pela vida. Todos os dias. E me embalo profundamente nesse sentido. Led Zeppelin.


Enquanto miúda, dentro de casa não havia muito requinte à mesa. Porém, o feijão nunca faltou. Anos depois, viajei literalmente os sete mares, morei em dezenas de países, e a parte que mais me fascinava era o novo prato que eu poderia provar em cada uma das minhas experiências exóticas. Omã, Tonga, Abu Dhabi, Ilhas Pitcairn, Japão, ... impossível não resistir as delícias de cada destino. Mas antes mesmo de ir para uma grande jornada me mais de 80 países, eu já era vegetariana.


O que tornou o desafio maior em lugares mais remotos. Mas ainda assim, estar sentada à mesa na casa de alguém é se permitir a descobrir um pouco não somente do seu tempero, mas do seu mundo. A comida nos aproxima. Eu já fiz amizades tendo em vista apenas essa paixão em comum, me lembrando que graças a esse sentido, mantenho meus olhos brilhando e a minha máquina de pé. .


O “abraço que fica”: Para mim, o momento mais doce da existência é na entrega pelo afeto. Quando preciso me conectar através desse abraço que não quer soltar mais. Gosto de fazer amigos, gargalhar, trocar discos, livros, sentar lado a lado num parque para me aproximar à natureza. Enfiar os dedos na terra, abraçar uma árvore e perceber que cada uma tem uma textura diferente. Esse é o sentido mais individual e único. Tocar a pele de um animal, de um bebê, de uma pessoa mais velha. Se tocar todos os dias. Eu me toco.


Memória olfativa. Aberta ao mundo, mergulhada em minha liberdade, eu sinto o cheiro do caminho das trilhas, dos campos, das cerejeiras, de uma tortilla saindo do forno, e do mar. Eu sinto o cheiro da terra se aproximando depois de uma longa velejada, da primeira colheita de uvas, azeitonas, da chuva lavando o asfalto, da brisa de um lugar. Sinto cheiro de ilha.


Dentro das tantas versões que existem em mim mesma, sou uma mulher que acaba de voltar a se sentir viva. Empreendedora, atuante em negócios, artista premiada, ativista e escritora. Múltipla, híbrida, fluida, que perdeu muitas partes de si, morreu e aprendeu a ressuscitar por conta própria. Aprendi que é sempre possível se salvar e inebriar com as belezas do mundo, pelo simples fato de estar respirando, sentindo tudo isso ao mesmo tempo com as memórias colecionadas. Com o prazer de aprender, se desenvolver, amar, ganhar, crescer, partilhar, somar forças.


Gosto de azul oceânico, e da generosidade. Sou amante das plantas, das gentilezas, dos lenços que voam com o vento rebelde num beco de Lisboa. Sim. Me sinto pronta para mais uma vida cheias de surpresas. Eu vou com medo mesmo, porque sou dessas. Sempre em busca dos significados. E dos sentidos.


- Barbara Veiga


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